Investir em Matemática é somar bons resultados para a Educação – Entrevista

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Escrito por

Redação

Publicado em

11 dez 2014

Com a soma de quatro décadas ensinando matemática em salas de aula, desde o Ensino Fundamental até o Ensino Médio, passando pelas redes pública e privada, metade desse tempo, 20 anos, como docente do Ensino Superior, o doutor Ivanildo Gomes do Prado tem multiplicado, ao longo de sua carreira, o amor pelo ensino da Matemática. Autoridade no assunto, ele compartilhou conosco sua visão do atual momento do ensino dessa disciplina no Brasil.

Currículo: Graduação em Licenciatura em Matemática, 1974, (USEc, hoje UNISA). Pós-graduação em Didática do Ensino Superior (PUC-SP), Mestrado em Álgebra Pura (PUC-SP) e doutorado em Educação Matemática (UNESP, Rio Claro-SP).

Recentemente, vimos um brasileiro, o matemático Artur Ávila, ganhar, pela primeira vez, a Medalha Fields, considerada o “Nobel da Matemática”. Qual é o significado desse prêmio para o país?

A importância é muito grande. O Brasil está colocado quase nos últimos lugares no exame do PISA, que é o exame que avalia o ensino da Língua e da Matemática. A impressão que se tem é de um país em que os matemáticos são todos ruins. Mas nós temos medalhas de ouro em olimpíadas. Temos bons matemáticos no país e que trabalham Matemática avançada. Esse rapaz é do IMPA, Instituto de Matemática Pura e Aplicada, que fica no Rio de Janeiro, e é um centro de grandes pesquisadores matemáticos. Está lá o professor doutor Elon Lages de Lima que é muito conhecido no mundo matemático. De lá saíram muitos outros matemáticos.

Quais as dificuldades que o senhor percebe no dia a dia de uma sala de aula, seja da rede pública ou privada? Quais desafios nós temos para superar na educação de Matemática?

A principal dificuldade é que ela é apresentada um pouco desvinculada do dia a dia do aluno, mesmo porque ele tem que aprender de forma desvinculada para poder avançar na Matemática. Muitas vezes, o professor não está muito preparado para isso. Normalmente, quem trabalha com as séries iniciais não é um matemático. Às vezes há uma professora que vai até a quarta série sozinha. Ela é quem distribui o tempo. Então é lógico que ela vai dar aquilo de que ela gosta mais e que domina mais. A Matemática tem que ser construída. O aluno tem que pensar ao produzir matemática. 

As dificuldades existentes na educação estariam prejudicando mais a matemática do que outras disciplinas?

Não. Eu acho que o governo investe bastante em educação e bastante em material. O aluno do estado recebe coleções de livros e de apostilas. Só que elas foram preparadas para o aluno ideal e não para o aluno real que nós temos. O governo não investe mais em Português do que em outra disciplina. Investe igual. Eu acho que o caráter da aprendizagem da Matemática é particular. Ninguém aprende Matemática como aprende Português. Ela tem um caráter peculiar. Deveria se investir um pouco mais em formação pessoal, considerando as dificuldades do ensino da Matemática. Eu acho que isso falta muito nas escolas.

Quais são as oportunidades e opções de trabalho existentes no mercado, hoje, para um profissional graduado em Matemática?

Ele pode ser professor. Felizmente, há os que são vocacionados e preferem dar aulas a, talvez, ganhar milhões fora. Existe um campo muito grande. Com uma pequena alavancada na carreira, um MBA ou alguma outra coisa, você pode se tornar um consultor, trabalhar como analista financeiro, em companhias de seguro, entre outras coisas. Eu tenho alunos, por exemplo, que terminaram Matemática e trabalham em áreas fora da Matemática, ganhando muito bem, inclusive no Ministério da Fazenda.

Existem muitas universidades formadoras de matemáticos, hoje, no país?

Está caindo cada vez mais. Só em nossa volta existem três que fecharam. Não é só a Matemática, as licenciaturas estão fechando. Há uma carência enorme de professores. Há milhares de vagas e necessidade de professor. A igreja tem que pensar seriamente numa forma de motivar os bons jovens adventistas a fazerem, não apenas Matemática, mas as licenciaturas em geral. Daqui uns dias nossas escolas não terão mais professores adventistas. Nós já estamos dentro de uma crise de professores adventistas. O professor adventista tem uma formação diferente. Outro dia, eu peguei carona com um aluno que terminou Educação Física. Ele me disse: “eu admiro muito os adventistas. Eu me sinto tão tranquilo para fazer uma entrevista hoje. Eu vou tranquilo porque eu tenho a paz, a tranquilidade que eu consegui no UNASP e que as outras faculdades não me dão”. Eu acho que o professor com a formação adventista que tem esse perfil e se formou no UNASP tem uma visão mais humana e cristã na hora de encarar os problemas, na forma de não perder a linha dentro de uma sala de aula e de tratar o aluno. Tudo isso faz a diferença em um professor.

De que forma as universidades podem ser úteis em melhorar a qualidade no ensino da Matemática no Brasil? Quais são os compromissos de uma instituição universitária?

É muito grande a responsabilidade de criar gosto pela matéria, de colocar o indivíduo preparado no mercado. A gente luta pra caramba. O aluno quer ir embora, mas a gente chama: “Venha domingo! Venha à tarde! Venha mais cedo!” Estamos em luta constante para levar o aluno a trabalhar. O aluno na nossa instituição é prioridade. Se ele tem dúvida, estou à disposição. Aqui, o aluno tem oportunidade de aprender. Ele não aprende mais porque o tempo dele é limitado. Muitos de nossos alunos trabalham o dia todo. 

Qual sua expectativa, como educador, para o futuro do ensino de Matemática tanto nas escolas públicas do Brasil quanto na rede privada, como na rede de ensino adventista, por exemplo?

Minha expectativa é de sempre encontrar gente que gosta de Matemática. Você sempre irá encontrar milhares que não gostam, mas vai encontrar centenas que gostam. Muita coisa poderia ser feita, investindo em tecnologia e no elemento humano que vai trabalhar com o aluno. Muitos professores trabalham três períodos por dia. É muita vocação. O professor tem satisfação, tem alegria por estar na sala de aula por ver o aluno vibrar. Ele está mexendo com a juventude, com a disposição, com a energia. É um ambiente gostoso, parece que você não envelhece. É uma profissão que motiva. Porque, se não motivasse, não haveria mais ninguém em sala de aula.

Qual o conselho que o senhor deixa para a nova geração de professores e para seus alunos?

O caminho é a educação. Se a gente não mudar pela educação, não vai mudar por nada mais. O papel da educação, no caso da educação matemática, é motivar, é preparar, é mostrar o porquê, conceituar e tornar o aluno um profissional consciente do que está fazendo. Nós temos que lutar, e nossos governantes e líderes devem olhar para a Educação, principalmente para as licenciaturas, com mais carinho.