Unasp aprofunda discussão sobre temática afro e indígena

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Escrito por

Murilo Pereira

Publicado em

31 ago 2016

No domingo, dia 28 de agosto, aconteceu a sexta edição do Fórum para Questões Afro-Indígenas na Contemporaneidade. O encontro é promovido pelo Núcleo de Diversidade Étnico Racial que faz parte da Extensão Universitária do Unasp campus São Paulo. Além da discussão de assuntos pertinentes às temáticas afro e indígenas, a programação oferece, sempre, apresentações de expressões cultural e artística que ressaltam o valor da diversidade étnica e racial. Novidade desta edição, o público assistiu a apresentações de Música Popular Brasileira na voz da cantora e estudante de Enfermagem, Evelin Conti, acompanhada pelo estudante de Ciências Contábeis, Jadiel Santos, no violão.

A música africana, tradição presente em cada fórum, ficou por conta do quarteto Vocal Makamba, formado por estudantes angolanos do Unasp-SP. No repertório, músicas em idiomas originais de Angola e da África do Sul, além do português.

O poeta, artista plástico e escritor angolano, Isidro Sanene, expôs algumas de suas pinturas e interpretou um de seus poemas que expressam os anseios de seu povo.  A decoração do Salão Nobre, onde ocorreu o fórum contou com bonecos de negros e de etnias indígenas trazidos pela professora Vanessa Caldeira, uma das palestrantes, e confeccionados pela artesã, professora e psicopedagoga, Márcia de Oliveira. Marcia informou ao público presente que começou a confeccionar bonecos de pano representando crianças negras com o objetivo de trabalhar temas como racismo e diversidade racial nas salas de aula. Hoje, ela confecciona, sob encomenda, bonecos de todas as etnias e culturas para serem usados com o mesmo fim em escolas da rede pública e privada.

Para a discussão sobre as questões afro e indígenas na atualidade, o Fórum trouxe convidados especiais. Entre eles, a professora Daisy Fragoso, mestre em Etnomusicologia, ficou responsável por conduzir as discussões da mesa redonda. A temática indígena foi explanada através da professora, mestre, Vanessa Caldeira, antropóloga e indigenista, que tem atuado como consultora junto à FUNAI, Fundação Nacional do Índio, coordenando o Grupo de Trabalho que cuida do projeto de elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Kaxixó, em Minas Gerais. O projeto consiste na identificação e delimitação de terras dessa etnia.

O professor, doutor, Fernando Mourão, professor sênior na Universidade de São Paulo, foi o responsável por discorrer sobre a temática negra. Ele, que entre muitas realizações no campo acadêmico, foi o fundador do Centro de Estudos Africanos da USP. Além de orientador de muitos pesquisadores do assunto, Mourão trabalhou e continua praticando esforços no sentido de aproximar estudantes e pesquisadores da Universidade de São Paulo, PUC São Paulo, UnB, Universidade de Coimbra – Lisboa, Universidade Clássica de Lisboa, Universidade Técnica de Lisboa, além de institutos angolanos. Além de ser participante do projeto de publicação da História Geral da África pela Unesco, como membro do Comitê Científico Internacional.

Em sua fala, Mourão incentivou os participantes do fórum a analisarem a nova realidade brasileira e os riscos de ignorarmos as transformações e os fenômenos atuais. “Além de estudar, que eu sei que estudam, façam reflexão o tempo todo e tentem entender o que se passa. Porque se fizerem reflexão, irão entender essa realidade”, aconselhou. O professor Mourão discorreu, ainda, sobre as contribuições e avanços que os estudos sobre o Continente Africano têm produzido na desmistificação de estereótipos e preconceitos acerca desse espaço geográfico que, boa parte da população brasileira, apesar da ligação histórica, pouco conhece.

Vanessa Caldeira, por sua vez, ampliou a percepção sobre a realidade dos povos indígenas, estimulando os estudantes a se posicionarem criticamente diante dos estereótipos construídos, em parte, pela história oficial, que tem sido contada há gerações, por meio do ponto de vista de colonização.

Segundo a antropóloga, ao se aproximarem dos índios e saberem o que dizer a respeito deles, os universitários que se interessam pelo assunto contribuirão para a valorização de pessoas que sofreram perdas irreparáveis ao longo da história. “Quando há aproximação com um povo e quando se tem contato com uma outra cultura é que você percebe que o que foi passado como uma verdade ou uma coisa natural, precisa ser repensado. Esse contato com os povos indígenas nos enriquece nesse sentido.

Podemos não ter relações diretas com comunidades indígenas mas, na hora em que souber de alguma coisa sobre eles ou que fale algo que remeta aos povos indígenas, devemos trocar o ponto de informação por uma interrogação. Como por exemplo: mas será que isso que eu ouvi, será que isso que eu li é verdade? O que será que os povos indígenas têm para dizer sobre isso que eu ouvi, que eu li e que eu tive conhecimento? Se fizermos isso, iremos atrás de algumas questões. Aí conseguiremos, talvez, chegar mais perto da riqueza que é a cultura indígena”, completou.

A estudante de Ciências Biológicas, Keylane Gara, conta o que a levou a participar do fórum. “O fórum transmite novos conhecimentos, nos ajudando a ter um maior aprendizado numa área que não é tão discutida na sala de aula. Eu como futura professora preciso ter essa compreensão para ensinar de forma correta aos alunos. Como futura bióloga, também preciso entender e saber mais sobre a cultura indígena e sobre os seus costumes porque existem áreas na Biologia que abordam alguns trabalhos com aldeias indígenas. Como, por exemplo, a situação da usina de Belo Monte. Aprendi sobre alguns conceitos errôneos que temos sobre o ‘Descobrimento do Brasil’ e que na verdade foi uma ‘conquista’. Aprendi sobre como é difícil para os povos indígenas conviverem com a sociedade atual e ganhei mais conhecimentos sobre a importância dessas duas etnias, a negra e a indígena, para o Brasil”, afirmou.

A professora Romilda Motta, responsável pela organização do evento, conta que ficou satisfeita com a resposta dos alunos convidados para participarem do evento. “Além do público participante, como ouvinte e reflexivo, a vinda de grandes referências no assunto tem sido uma prática que merece menção. Ao priorizar a temática e os eventos relacionados ao tema, o Unasp coloca-se como uma instituição que demonstra valorizar e respeitar a riqueza e o valor da diversidade étnico-racial, validando isso, também, por meio da produção de conhecimento reflexivo”, concluiu.