Psicoterapia e espiritualidade são compatíveis e melhoram a saúde, dizem pesquisadores

Cultura e Ciência

Escrito por

Murilo Pereira

Publicado em

02 abr 2018

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Isaac Maciel

Enquanto o Brasil, de maioria cristã, soma altos índices de depressão e ansiedade, o curso de Psicologia do UNASP discute relação entre psicoterapia e espiritualidade.

Você sabia que orar, louvar e estar na igreja faz bem para a saúde emocional? Os estudiosos do campo da Psicologia confirmam isso. Segundo o doutor Esdras Vasconcellos, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), “o depressivo tem uma concentração muito baixa de dopamina e de serotonina. O ato religioso através dos cânticos, do louvor, da oração e da adoração, pode elevar esses níveis de serotonina e de dopamina e fazer então com que ele saia da depressão e vivencie alegria”, explicou.

Porém, apesar de 68% dos brasileiros se considerarem cristãos conforme o último levantamento do IBGE, estamos entre os países que mais sofrem com depressão e ansiedade. Segundo dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde em 2017, o Brasil lidera o ranking dos países com maior índice de pessoas com ansiedade. São 18,6 milhões de brasileiros, o que representa 9,3% da população. Com relação a depressão, o Brasil é o 5º país com maior incidência desta enfermidade psíquica, com 11,5 milhões de cidadãos, ou seja, 5,8 % da população.

Formação para saúde mental

O curso de Psicologia do UNASP campus São Paulo, considera ser de grande importância discutir e estudar a relação entre religiosidade e psicoterapia. No mês de março, o curso trouxe para um simpósio dois pesquisadores reconhecidos nacional e internacionalmente por estudar como a religião deve ser abordada no tratamento de saúde emocional.

A coordenadora do curso de Psicologia do UNASP, Vivian Araújo, explica que enquanto instituição de ensino confessional e formadora de psicólogos, é de fundamental importância dar embasamento para que os universitários entendam cientificamente como abordar as questões sobre a integração da espiritualidade dentro da psicoterapia. “Isso é possível, é importante, mas tem que ser feito com fundamentação. Trazer essas pessoas que são expoentes dentro da psicologia tanto em nível nacional quanto mundial para apresentar aos alunos esse conhecimento técnico é fundamental para que então possamos formar melhores profissionais com condições de fazer essa integração com o respeito e a ética que a religião e a psicologia merecem”, esclareceu.

Doutor Esdras Vasconcellos é pesquisador do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

O convidado brasileiro, doutor Esdras Vasconcellos, pesquisa a relação entre a mente, o sistema nervoso central e as reações hormonais (psiconeuroendócrinas) e como essa relação se manifesta em diversas esferas da vida social contemporânea como, por exemplo, por meio do estresse. Estuda também o processo de criação de mecanismos aplicados ao enfrentamento do estresse, conhecido como coping, se eles são eficazes e o surgimento de sintomas e patologias. Analisa ainda os processos intrapsíquicos, história de eventos de vida e como estes interferem nas enfermidades. Em sua palestra, apresentou como as práticas religiosas se manifestam biologicamente e interferem nas emoções e bem-estar mental.

Psicologia X Religião (?)

No entanto, por muitos anos a psicologia e a religiosidade foram consideradas antagônicas pela maioria dos profissionais e pesquisadores. Parte disso, se deve às divergências filosóficas que distanciaram ciência e religião. As pesquisas do cientista e psicólogo norte americano, Kenneth Pargament, reconhecido mundialmente como principal autor e expoente do assunto na comunidade científica tendo publicado mais de 250 artigos e o principal livro sobre psicologia da religião, têm ajudado a romper o preconceito e evidenciado o benefício das abordagens que propõe para a saúde emocional dos pacientes.

“Existe uma lacuna na forma através da qual os profissionais de saúde mental têm abordado o tratamento e infelizmente a espiritualidade tem sido negligenciada por anos. Felizmente este cenário começou a mudar e nós temos aprendido novas e empolgantes maneiras de integrar a espiritualidade à psicoterapia e outras formas de tratamentos em saúde mental”, afirmou Pargament.

Principal referência mundial a respeito da espiritualidade no contexto da psicoterapia, Kennethy Pargament falou para universitários do UNASP-SP

Tendo por base a população dos Estados Unidos, Pargament constatou que 96% das pessoas acreditam em Deus e buscam na religiosidade o conforto de que necessitam para lidar com eventos difíceis da vida. Ao passo em que apenas 24% dos psicólogos clínicos se dizem crentes. Outro fator, que segundo o pesquisador influencia na dificuldade em conciliar religião e psicoterapia, é a falta de formação profissional adequada. Apenas 25% dos treinamentos e Ph.D em Psicologia Clínica nos EUA e Canadá oferecem aulas e conteúdo sobre religião e espiritualidade.

Os trabalhos de Pargament mostram que quando o psicólogo não tem preconceito contra a religião, o paciente pode ter resultados mais eficazes ao ser respeitado em suas crenças. “Sabemos que os grandes dramas da vida: doença; morte e perdas trágicas afetam as pessoas não apenas psicologicamente; socialmente; emocionalmente e fisicamente. Eles afetam as pessoas espiritualmente.  Algumas quando passam pelas grandes mudanças na vida, incluindo os problemas de saúde mental são sacudidas espiritualmente também”, descreve exemplificando aquelas atitudes de revolta e questionamento a Deus por ocasião de grandes dificuldades enfrentadas.

“Sabemos que estes conflitos espirituais podem estar associados a problemas de saúde mental. Em sua essência, eles tornam as coisas piores para as pessoas. Então, mais uma vez é importante para os profissionais de saúde mental saber como nós ajudamos as pessoas quando elas estão passando por períodos de conflito. Como ajudamos as pessoas quando são chacoalhadas em sua essência”, enfatiza Pargamet.

 

Segundo Pargament, as pesquisas têm trazido novas e empolgantes maneiras de integrar a espiritualidade à psicoterapia. (Foto ilustrativa)

O primeiro adventista a se tornar psicólogo no Brasil e um dos precursores para o início do curso de Psicologia do UNASP-SP, doutor Belisário Marques, começou a exercer a profissão em um período no qual o preconceito também vinha da religião para com a psicoterapia. “A psicologia também não era muito bem aceita pelo meio religioso. Eu pego essa fase em que a psicologia não foi aceita e, é claro, eu também não era aceito. Então, eu vivi em um momento de contraste e de briga muito grande. O terapeuta não pode ser preconceituoso. Pode ter as crenças, os valores e os parâmetros que ele segue na vida dele, mas não pode impor isso em ninguém, a nenhuma pessoa”, reforça.

A compreensão das pessoas foi mudando ao longo do tempo. Porém, desde o início da sua carreira como psicólogo clínico, já são 50 anos, Marques conta que vê os pacientes trazerem suas questões espirituais para o consultório. “É muito frequente não só em pacientes religiosos, mas em pacientes que não são religiosos. Chega o momento em que a pessoa pergunta de religião. Então, como eu sou religioso, eu respondo sobre religião sem fazer proselitismo. Isso é, sem induzir ou doutrinar a pessoa na religião”, assinala.

O real problema

Pargament apresenta que entre os fatores que evidenciam a importância de se integrar a espiritualidade ao cuidado de saúde mental estão: a religião é um fato cultural; as pessoas desejam um cuidado espiritual; espiritualidade é um recurso para muitas pessoas; espiritualidade está ligada a resultados positivos de saúde e, por fim, espiritualidade pode ser uma fonte de problemas.

Para pesquisadores, o paciente obtém melhores resultados da psicoterapia quando tem as suas crenças respeitadas. (Foto ilustrativa)

A respeito do último fator, o pesquisador cita problemas como: extremismo; preconceito; hipocrisia; culpa incapacitante; passividade e negação. As lutas emocionais causadas pelos problemas citados, se manifestam em três dimensões. Primeiramente, a pessoa luta com algo divino, coloca Deus, por exemplo, no âmago da sua inquietação. Depois, as lutas espirituais dizem respeito aos relacionamentos interpessoais e, por último, as lutas acontecem de forma pessoal e intrapisíquica, ou seja, a pessoa luta com ela mesma.

Estas inquietações demonstram que a espiritualidade, portanto, não pode ser separada do tratamento. Uma vez em que as crenças da pessoa fazem parte do contexto emocional ao qual se encontra. Pargament, propõe que tratamentos  capazes de integrar a espiritualidade são mais promissores nos resultados.

Promoção da saúde mental

“Eu preciso da psicoterapia para organizar a minha mente de tal forma que essa energia que o ato religioso produz, possa ter uma reverberação, uma vibração ampla no meu corpo, na minha mente e gerar um estado saudável. Então, a psicoterapia precisa da religião e a religião precisa da psicoterapia.  Eu penso que a ênfase recai sobre a integração do ser humano. Onde, ao lado das ciências humanas, estão também as ciências exatas, a filosofia e a religião. Se nós conseguirmos integrar tudo isso no modelo, certamente estaremos mais próximos de gerar saúde e de menos doença”, raciocina Vasconcellos.

Marques, ressalta que a eficácia da psicoterapia depende da competência e da ética do psicólogo e não de sua crença. “Essa ideia de que eu tenho que consultar um terapeuta por causa da religião é errada. Eu posso consultar qualquer terapeuta. A única coisa que eu preciso fazer é procurar um terapeuta competente e que tenha referência. Não é qualquer terapeuta e nem é pelo o preço que você vai procurar, mas deve procurar pela qualificação da pessoa”, reforça.