Outubro rosa, doença escura

Impacto Social

Escrito por

Isabella Anunciação

Publicado em

30 out 2019

O relato de um filho que viu a mãe vencer o câncer de mama

 

Bruno Santos estava na cozinha quando sua mãe chegou para conversar. Era uma sexta-feira à noite e, naquele momento, só os dois estavam no cômodo. Como quem já esperava, ele recebeu a notícia de que sua mãe, Rosana Santos, estava com câncer de mama. O céu escuro lá fora agora parecia envolver seu coração. Os olhos dos dois se encheram de lágrimas. “E agora? Como mudar essa situação?”, foi o primeiro pensamento do filho.

Os dias foram passando e Bruno se manteve tranquilo. Porém, sua mente não conseguiu ignorar por muito tempo o que acontecera. Uma semana após a notícia de que sua mãe estava doente, “caiu a ficha”. Ele estava em meio a amigos – também durante uma sexta-feira – quando se deu conta da gravidade daquela nova realidade. “Comecei a entender o que tudo aquilo significava e a imaginar o tanto que ela iria sofrer. Eu não aguentei, tive que ir embora”, relata.

Com 25 anos de idade, Bruno Cesar Cardoso Santos é formado em música e possui uma agenda cheia. Por ser barítono do grupo musical Vocal Livre e regente do Coral de Sinos do Unasp campus Engenheiro Coelho, precisa viajar inúmeras vezes durante o mês. Além das funções que demanda deslocamento, Bruno ainda atua como professor de inglês para o curso de teologia e par ao Ensino Médio na instituição. Em seu tempo livre, não esconde o amor que sente por videogame, filmes e séries. “Por mim, eu só faria essas três coisas”, brinca. Antes da enfermidade da mãe, a família – os pais e os dois irmãos – costumava jogar vôlei e praticar ginástica. Depois do diagnóstico, as consultas se tornaram frequentes, e os momentos de lazer deixaram de ser prioridade.

Inimigo silencioso

O câncer chegou sem avisar. Rosana não teve dor e também não apresentou nenhum tipo de característica externa que indicasse problemas na saúde dos seios. Nada aconteceu para presumir algo, salvo o dia em que fez um exame de rotina. Era fevereiro de 2017 quando a médica andava de um lado para o outro, como se suspeitasse de alguma coisa. Ao fim do exame, a especialista a instruiu que procurasse outro médico, pois havia um nódulo “esquisito” em uma das mamas.

Era exame em cima de exame, e esse processo deixou Rosana atordoada. “O meu marido me ajudou a não sofrer tanto até ter o resultado definitivo”, relata. Mesmo assim, ela sentiu muita angústia durante os seis meses entre o diagnóstico e cirurgia que erradicou o câncer de seu corpo, a mastectomia. A partir da retirada da mama esquerda, o cuidado com a saúde começou a ser dobrado, e o início da quimioterapia foi o pontapé de outros agravos.

Bruno recorda que a pior parte foi ver o cabelo de sua mãe cair em razão da quimioterapia. “Sempre achei a minha mãe muito, muito forte!”, relembra ao dizer que nunca havia visto um lado fraco dela antes da perda de cabelo. Ele diz que, como família, é importante ser especialmente carinhoso nessa situação delicada, pois a mulher está perdendo uma parte dela, e isso “só se preenche com amor”.

Durante alguns dias daquele período doloroso, Bruno enviou fotos de mulheres carecas para Rosana, mostrando que nem por isso elas deixavam de ser lindas. No entanto, nem sempre o esforço era recompensado. “A perda do cabelo foi muito significativa para ela. Então, não importava o que eu fizesse, não iria mudar muita coisa”, lamenta. Outra maneira encontrada para cuidar da mãe foi dividir as tarefas em casa. Para a família, a maior dificuldade era conciliar as atividades pessoais de cada um com o serviço doméstico.

Câncer, saúde emocional e a cura

O que eu e você não imaginamos é que o diagnóstico da doença é só a ponta do iceberg para quem está com câncer. As implicações vão de dores a problemas da saúde emocional. Além das cicatrizes no peito, Rosana também foi ferida psicologicamente. “Às vezes, eu pensava em deixar a casa arrumada e fazer a compra do mês para minha família, por ter a sensação que eu não estaria mais viva em pouco tempo”, conta. E esse era apenas um dos dramas que a envolveu enquanto passava pelo tratamento.

Dois anos após o diagnóstico inicial, Rosana está curada do câncer e da depressão, que chegou durante a quimioterapia. Foi um tempo árduo e que trouxe sequelas. Hoje, ela não consegue mais praticar esportes e limpa a casa com dificuldade por causa das dores intensas provocadas pela retirada dos linfonodos na axila – órgãos responsáveis pela produção de anticorpos e quem compões a mama.

A fisionomia de Bruno expressa arrependimento ao contar que poderia ter sido melhor como filho naquele período. Contudo, hoje sua perspectiva sobre os deveres domésticos e sobre o sentido de lar são outras. “Dou muito mais valor às atividades que ela faz em casa e ao tempo em família”, reforça.

Rosana não esperava que o câncer de mama fosse acontecer justo com ela, que era saudável e não possuía histórico da doença na família. Por isso, Bruno aconselha que a melhor forma de se cuidar é por meio dos exames preventivos. E, se o diagnóstico chegar, é muito importante que a família se informe a respeito da enfermidade. Afinal, o diagnóstico não é apenas acompanhado de problemas físicos, mas pode acarretar dores emocionais.

Por mais que o outubro seja “rosa”, o câncer de mama afeta a vida de muitas pessoas. Nem todos conseguem receber a cura e ver o sol da manhã seguinte. Rosana precisará ficar aposentada por dois anos para continuar com o tratamento. “É uma fase difícil, pois precisei parar tudo o que eu fazia. Por outro lado, consigo dar mais atenção para o meu lar”, pondera. Para Rosana, é tempo de aproveitar a chance que a vida lhe deu para amar e aproveitar os bons momentos após a vitória contra o câncer.