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Dona Anna e Jesebelda – Crônica por Luigi Javaroni

Dona Anna e Jesebelda

Dona Anna era desleixada, em dias normais só levantava do sofá se a casa pegasse fogo, mas esse não era apenas um dia normal, ela cordou cedo, se aprontou, pegou um espanor que tinha tanto pó que nem mais utilidade tinha. Já Jesebelda era inquieta, sua casa era mais modesta, mais aconchegante, menor. Ela sentia que ali era seu lar, limpava sua morada todos os dias, brigava com os filhos se iam longe, uma verdadeira dona de seu próprio ninho.

A casa de Anna era grande, longas escadas, tapetes que contariam histórias incríveis se falassem, portas tão altas que ela precisava de uma escada para terminar o serviço. Mas como ela não tinha foco na limpeza, perdia-se com pouco. Jesebelda diariamente se prontificava para remontar seu lar, porque mesmo com todo o trabalho, ela sabia que ali era realmente seu lugar, afinal, montar uma casa é cansativo, e mesmo que seja pequena como a dela, era a casa de Jesebelda.

“Como pode ter tanto cantos em uma única casa?” Certamente pensava Anna, cansada, como se nunca fosse acabar. Até que uma ideia surgiu “e se eu começasse do telhado? De cima para baixo?” E assim foi. Pegou a escada novamente, apontou para o quintal, saindo pela porta de trás viu um dia lindo “que desperdício”.

Anna preferiu levar apenas uma vassoura, afinal, quem passa pano em telhado? Quase caiu ao subir, equilibrando-se, passo por passo, ela subiu. Que vitória! Há tempos não fazia tanto esforço físico. Desviou da calha e foi andando com cautela para o meio das telhas de trás. Era de tamanha lentidão, que ao passar dos minutos, ela se sentia exausta, assim como no começo do dia.

Jesebelda terminou seus afazeres, como uma sábia dona de casa. Enfim, deixou-se levar, saiu para conseguir o que comer, talvez gastaria mais tempo do que queria, mas ela sabia, até o por do sol estaria de volta.

Porém, não era só mais um dia normal, Dona Anna naquele dia provaria um de seus maiores desafios. Não demorou muito, acima de uns tijolos tortos na parte lateral do telhado ela encontrou, sim, ela encontrou algo que talvez só a vassoura não a ajudasse, um ninho de passarinho. “Agora eu limpo alguma coisa” não foi exatamente o que ela pensou, mas soou desta forma, pode acreditar.

Com a vassoura em mãos, em dois ou três movimentos aquele ninho já era mais um amontoado de galhos e folhas do que uma casa de pássaros. Anna continuou até não sobrar mais nada, tudo ao vento, enfim, alguma parte da casa estava limpa. Jesebelda ao voltar para casa, ficou triste, não havia mais casa, não havia mais nada, tudo o que um dia ela construiu não existia mais. Outra vez, precisava de uma nova morada.

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